terça-feira, 4 de maio de 2010

FICÇÃO E HISTÓRIA EM MEMORIAL DO CONVENTO

 

Susana Irion Dalcol

          Em Memorial do convento, obra publicada em Portugal (1982), Saramago apresenta como enredo a construção de um convento na cidade de Mafra, no século XVIII. Povoando a narrativa com uma gama riquíssima de personagens cujos destinos se cruzam, retrata fatos, alguns extraídos da realidade, misturando ficção enquanto imaginação com a ficcionalização de feitos históricos.

          Memorial do convento é um romance no qual o autor revisita a história, enfocando fatos que marcaram época, recriando-os literariamente mediante uma nova ótica, na qual a ficção ocupa os "vazios" deixados pela história oficial, aquela história cuja voz pertence somente aos dominadores[1]. Porém, Saramago não constrói um romance no qual somente a voz dos dominados é a única a soar. Constrói, sim, um diálogo entre duas vozes distintas: a dos dominados e a dos dominadores.

O autor valoriza aspectos da história oficial, mas mostra também o lado negativo de situações oriundas dessa história. Para isso, utiliza-se do riso ambivalente, com seu valor destrutivo e negativo por um lado, e regenerador e positivo por outro. Ao mesmo tempo em que burla e critica determinados comportamentos e ações já sacralizadas pela versão oficial da história, destruindo-a, Saramago propõe a sua renovação e ressalta seus valores positivos, procurando reconstruir a história. Assim, o reinado de D. João V, a vida na corte, a construção do convento de Mafra, os autos-de-fé, as procissões religiosas, a vida miserável dos trabalhadores e da população marginalizada de Portugal, na obra representada principalmente por Blimunda e Baltasar formam a rede que constitui a narrativa. A degradação da vida religiosa nos conventos e a construção da Passarola, protagonizada pelo Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o "padre voador" - também são partes integrantes da narrativa.

No primeiro parágrafo da obra já se pode perceber a intenção de mostrar uma visão diferente da história oficial quando o narrador se refere à relação conjugal entre o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana Josefa. O narrador utiliza-se da linguagem típica popular para tratar da questão da fertilidade da rainha: "ainda não emprenhou", "tem a madre seca" (p.11). Valorizando esses aspectos, ressalta verdades que o tom sério oficial não enfoca.

          Saramago traz da história oficial personagens da realeza que nos são apresentadas sem aquela nobreza que as caracteriza, mostrando o "avesso", subvertendo a ordem. Na história oficial, a intimidade de um rei nunca é exposta a descrições constrangedoras, como as que se verificam em Memorial do convento. A figura do rei aqui é associada à fraqueza do corpo, ao "baixo corporal" - flato rijo, tripa empedernida (p.49) - expressões usadas pelo narrador para descrevê-lo. Essa descrição desmitifica e torna cômica a imagem do rei.

          Outra estratégia utilizada na narrativa é a contraposição de aspectos negativos e positivos. O poder do rei é questionado mediante afirmações do narrador que contrapõem seu poder a situações de riso. Tal situação traz à tona aspectos pouco nobres da realeza, relacionados, novamente ao baixo corporal, às necessidades naturais do corpo: "Quanto pode um rei. Está sentado em seu trono, alivia-se consoante a necessidade, na peniqueira ou no ventre das madres" (p.293)

          A ironia é uma das formas reduzidas do riso ambivalente, que nunca é expressa diretamente, fica implícita. Em Memorial do convento o uso da ironia é bastante freqüente, não só no discurso do narrador, mas também da personagem de D. João V, cujo discurso sofreu uma espécie de contaminação do discurso ironico do narrador, caracterizando uma superposição de vozes: a voz irônica do narrador e a voz da personagem. Em seu discurso, o rei retrata-se de forma irônica, ressaltando seus esforços como soberano, mas revelando também sua presunção de comparar-se a Cristo e suas relações adúlteras com as monjas (p.155-6).

          Segundo Bakhtin, uma das características da carnavalização é a inversão da ordem habitual das coisas, na qual ocorre a profanação de tudo o que é sagrado. Tal situação fica bastante evidente no romance em passagens que enfocam a procissão religiosa da Quaresma (procissão de penitência), onde o sagrado é profanado, onde a religião do espírito dá lugar à religião da carne (p.29). Nessa procissão, que ocorre no ambiente característico da praça pública, palco das ações carnavalescas, os penitentes, todos homens, vão passando pelas ruas cheias de gente, autoflagelando-se a fim de purificarem a alma. As mulheres ficam assistindo de suas janelas, não com aquele esperado sentimento de fé e religiosidade, mas "possessas, frenéticas". Esse tipo de procissão deveria possuir um caráter sagrado, de profunda reflexão espiritual e de penitência, no entanto, transforma-se em verdadeiro carnaval, onde prevalece a devassidão, a transgressão, o lado "avesso". Oliveira Filho (1993:60) afirma que é no espaço da praça pública que "lateja, portanto, o próprio espírito do texto, porque ela figura o local privilegiado da síntese entre o país oficial e o clandestino, resultando num outro país - que é aquele que o Memorial do convento quer revelar".

          Na história oficial portuguesa, o Santo Ofício (Inquisição), ocupa papel de destaque porque assinalou uma época de perseguições, de torturas, de fogueiras humanas, de utilização de métodos desumanos dos inquisidores com a finalidade de extirpar da sociedade seus agentes desagregadores - os cristãos novos. Nem sempre a fé foi o motivo primeiro que levou a Inquisição a perseguir e matar inocentes. A moral religiosa estreita, bem como o jogo de interesses econômicos e políticos eram motivos muito freqüentes das condenações. A Inquisição, como importante fato histórico do séc. XVIII, encontra-se presente, mostrando, ironicamente, o "avesso" da história. O narrador descreve o cerimonial das longas procissões dos condenados até o cadafalso. Usa, para isso, expressões como "solene cerimónia, tão levantadeira das almas, acto tão de fé"(p.49).

          O narrador destaca também o alvoroço que transtorna a cidade com os autos-de-fé. Traz à tona o aspecto mais grotesco do povo, seu gosto pela morte. Aproxima o auto-de-fé de uma grande festa popular - "hoje é dia de alegria geral" (p.50) - no qual as pessoas ficam eufóricas com fatos que deveriam ser carregados de repúdio e medo pela conotação negativa que carregam. É, mais uma vez, evidente a presença da ambivalência: repressão e liberdade encontram-se lado a lado. A violência característica dos rituais da Inquisição leva ao riso, que liberta do medo. No entanto, essa liberdade é efêmera; só ocorre durante as festividades.

Para concluir

Em Memorial do convento, as imagens carnavalescas exercem um papel fundamental para a compreensão do romance, pois proporcionam uma nova leitura dos fatos ali expressos, possibilitando a desestabilização e o desvendamento da realidade histórica que serve de fio para a constituição da narrativa. Saramago constrói uma narrativa, na qual o tom é dado pelo riso zombador.

          A utilização de imagens carnavalescas em Memorial do convento valoriza aspectos de uma determinada realidade, ressaltando verdades e criticando desvios de normas sociais. É a carnavalização que traz à tona o que fica escondido, os defeitos que não são ditos. Pelo seu caráter ambíguo, pela sua duplicidade, proporciona outra visão dos fatos. Ao instaurar a ambigüidade, a dúvida, leva o leitor ao questionamento, à reflexão, despertando, assim, sua consciência. Como afirma Saramago, "Deus não sorri, ele lá saberá por que, talvez tenha acabado por se envergonhar do mundo que criou" (p.315).



[1] Cf. SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. José Saramago entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, 1989.

3 comentários:

Milu disse...

Olá Susana!

Muito obrigada por mais esta achega sobre a obra de cujo estudo me tenho ocupado nos últimos tempos. Estas suas análises tem sido uma ajuda preciosa na compreensão e leitura deste livro, tendo em conta as intenções de denúncia do seu autor. O meu muito obrigada.
Um beijinho.

formaxima.com disse...

Suzana passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, espetacular desejo muito sucesso em sua caminhada
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Ass:Rodrigo Rocha

Caяoℓ Łeaℓ disse...

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