sexta-feira, 25 de setembro de 2009

QUESTÕES DE GÊNERO – CRÍTICA FEMINISTA CONTEMPORÂNEA

Susana Irion Dalcol

Segundo Linda Hutcheon (1991), a descentralização do sujeito efetuada pelos ex-cêntricos de nossa cultura resultou tanto da teoria quanto da arte, dos discursos feminista e negro, mas também da correspondente ficção desses ex-cêntricos.

Lígia M. da Costa (1998) comenta que a representação pós-moderna do mundo não manifesta uma experiência subjetiva, não parte de convicções ou da sensibilidade de um sujeito, mas, ao contrário, é uma representação sem sujeito, descentralizada, diluidora das diferenças discriminatórias e ao lado dos pontos de vista das outras pessoas; daí ela dar voz a discursos até então excluídos, como é o caso do feminismo.

De acordo com Laura C. Padilha (2000), a margem é o espaço no qual se entrelaçam novos e surpreendentes sentidos e onde se entrecruzam gestos e olhares de reconhecimento não só das mulheres, mas de negros, judeus, homossexuais e outros tantos que, "ex-cêntricos", foram assinalados pela exclusão e pelo apagamento.

Dentro do pós-modernismo, Simone Schmidt (2000) diz que a crítica feminista propõe-se a uma leitura da ficção contemporânea, na qual são repensadas e redefinidas as posições dos sujeitos. Nada permanece fixo e imutável nessa leitura.

Para Cristina Ferreira Pinto (1990), o feminino representa a expressão do que tem sido sempre subjugado, silenciado, colocado em uma posição secundária tem termos culturais. (...) Ao romper o silêncio em que foi colocado, o "feminino" iguala-se também com o revolucionário, o subversivo, porque se propõe a sair da posição secundária em que se achava. Esse processo de subversão dá-se, pois, através de recursos narrativos como a ironia, o humor, o texto palimpsesto (implícito). A autora enfatiza ainda que a narrativa feminina, numa prática subversiva, apresenta uma revisão de gêneros masculinos e uma revisão da história, escrevendo-a de um ponto de vista marginal. Porque sua experiência de vida é restringida, limitada, a mulher volta-se para sua realidade interior, subjetiva, complexa, que se manifesta na linguagem do seu texto.

A escritora e ensaísta Argentina Marta Traba (1985) enfatiza que a literatura feminina é diferente da canônica (e masculina) e ocupa espaço diferente no âmbito literário. Seu ponto de partida é a afirmação de que a literatura feminina está em um lugar distinto do que se convencionou chamar de espaço literário. Para verificar se o espaço do texto feminino ocupa um lugar específico, Traba descreve o que entende por texto literário, a partir de definições que priorizam a técnica e o distanciamento do escritor (experiências de vida) em relação ao seu material. Este (o escritor) deve ficar fora ou acima do seu material e não entre ele, para manipulá-lo com autonomia. A autora afirma, então, que lendo contos e romances escritos por mulheres, pôde observar que elas não se preocupam com o distanciamento e não se desprendem das experiências vividas. Por não seguirem as características que fazem a obra alcançar o universal, os textos femininos levam desvantagem frente aos masculinos. Isso seria a causa da produção feminina não figurar no cânone. A mulher escritora vai buscar uma linguagem diferente para se representar - a escritura feminina -, por meio da qual passa a valorizar as diferenças, tanto na escolha dos temas, como no uso da linguagem, marcada pelo trasbordamento e não pela contenção.

A autora levanta algumas características, afirmando que foram encontradas em textos escritos por mulheres:

·        Interessam-se preferentemente por uma explicação (que serve também para esclarecer a própria autora) e não por uma interpretação do universo;

·        Produzem uma contínua intromissão da realidade no plano da ficção;

·        Dão destaque aos detalhes, como ocorre também no relato oral;

·        Estabelecem semelhanças com a oralidade, através de repetições, de remates precisos no final do texto e de cortes aclaratórios na história.

A partir dessas características, Traba vê um outro discurso, no qual o testemunho e a experiência se misturam com o material vivido, dando ao discurso feminino uma alta emotividade, que recai mais na memória que na invenção.

REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS

COSTA, Lígia Militz da. Representação e Teoria da literatura – dos gregos aos pós-modernos. Cruz Alta: UNICRUZ, 1998, p.58.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p.117.

PADILHA, Laura C. In. Schmidt, Simone. Gênero e história no romance português - prefácio, 2000, p.9.

PINTO, Cristina Ferreira. O bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990, p. 26.

SCHMIDT, Simone. Gênero e história no romance português, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000, p.51.

TRABA, Marta. Hipóteses sobre uma escritura diferente, 1985.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá, Susana, adorei sua postagem sobre a crítica feminista contemporânea. Gostei tanto que usei sua postagem como fonte de pesquisa para um trabalho acadêmico sobre literatura feminina (não se preocupe, pois eu citei devidamente seu nome no trabalho, ok?).